A Paixão e a Virtude do seu Tipo no Eneagrama

Chaves para seu crescimento pessoal

Como dizem muitos mestre, Escola de sabedoria e Tradições da humanidade, para se produzir um efetivo crescimento psico-espiritual, é preciso dedicar atenção aos aspectos centrais do trabalho interior e não se perder em distrações. Do ponto de vista do Eneagrama, isto implica priorizar a auto-observação dos aspectos mais centrais da psique do seu eneatipo e evitar se perder na observação dos inúmeros outros traços comuns de comportamento do seu padrão. Isto, porque, do ponto de vista do verdadeiro trabalho de consciência, os traços de comportamento típicos de cada um dos nove tipos do Eneagrama são detalhes que nos desviam do que realmente importa.

Mas, quais são os aspectos centrais da psique dos nove eneatipos? Além dos aspectos que advêm do diagrama do Eneagrama – flechas, asas e aspectos relacionados às Leis do Três e do Sete, conforme teoria explicada por Gurdjieff -, os demais pontos centrais são aqueles sistematizados por Oscar Ichazo: a “paixão” e a “Virtude” (que são, em cada eneatipo, respectivamente, a dimensão emocional inferior, da personalidade, e a superior, da Essência); a ”fixação” e a(s) ”ideia(s) santa(s)” (ou seja, a dimensão mental inferior e a superior); os instintos ou subtipos, que são três – autopreservação, social e sexual -, e que são destorcidos no nível da personalidade e puros no nível da Essência; e o mecanismo de defesa, sendo que um deles é mais central para cada eneatipo.

Neste artigo, exploraremos um pouco os conceitos da “paixão” e da “Virtude”, de maneira geral, usando como fontes principais o excelente livro “Passions and Virtues”, de Sandra Maitri (ainda não traduzido para o Português), minhas experiências ao ensinar o Eneagrama nos moldes da Tradição Narrativa de Helen Palmer e David Daniels e minhas vivências como participante de uma Escola de Desenvolvimento do Ser ( www.imagomundi.com.br ).

Em artigos futuros, pretendo explorar como são as nove paixões e Virtudes específicas, assim como os demais aspectos da psique dos eneatipos citados acima.

A paixão é o tom ou qualidade emocional que caracteriza nosso eneatipo quando estamos controlados pela nossa personalidade ou estrutura egóica. Sempre que estamos no domínio da personalidade, estamos submetidos ao padrão da paixão do nosso tipo, como agentes passivos em estado adormecido (embora também tenhamos, em menor grau, reações emocionais típicas dos demais oito padrões emocionais).

Quando estamos muito identificados com nossa personalidade, a paixão do nosso tipo é intensa, compulsiva, consome uma grande parte da nossa energia e representa também o núcleo do nosso sofrimento. No estado de adormecimento, a paixão define muito da experiência que temos da vida, ao mesmo tempo que é um padrão inconsciente. Por tudo isto, ela também é chamada, às vezes, de “vício emocional central”, ou seja, algo que vai muito além de uma simples emoção. Kant (em “Anthropologie”) , por exemplo, comparou emoção com paixão da seguinte maneira: “uma emoção é como água que ultrapassa um dique, enquanto paixão é como uma torrente que faz com que o leito da água seja cada vez mais profundo. Uma emoção é como uma embriaguez que te faz dormir; paixão é como uma doença que resulta de um conceito falso ou um veneno”.

Independentemente do nome utilizado, o conteúdo da paixão resume aspectos muito centrais de nossa identificação com nossa personalidade e é, consequentemente, uma chave muito importante a ser acionada em nosso trabalho de crescimento. Uma chave bem mais importante do que as emoções dos outros oito pontos do Eneagrama.

Mas, como acionar esta chave? Como trabalhar a paixão do nosso tipo? Entendo que, antes de mais nada, é necessário desenvolver a capacidade de usar o “eu observador” para testemunhar a operação da nossa paixão específica. Uma auto-observação mais focada neste que é o núcleo da experiência emocional de nosso tipo. Mais do que compreender mentalmente os comportamentos decorrentes da paixão, esta auto-observação nos permite perceber, em tempo real, as sutilezas do nosso estado emocional interior, em si. Além disso, ao meu ver, também é importante acessar, trabalhar e dissolver as histórias pessoais (de infância, por exemplo) que associamos a este estado interior. Se, por um lado, não podemos nos perder indefinidamente nelas e não podemos tentar resolve-las apenas no nível da personalidade, acredito que tampouco devamos ignora-las, pois elas escondem complexos (conceito Jungiano) que, se não descarregados, continuarão a sugar energia de nossa psique.

A partir da auto-observação da paixão, podemos conter nossa reatividade, invocar Presença, distribuir a energia de nossa paixão pelos outros dois centros (mental e instintivo, no vocabulário do Eneagrama contemporâneo), canalizar essa energia para estruturas superiores, da Essência, expandir esta energia usando técnicas de morfologia de presença etc. Ou seja, podemos usar outras ferramentas de autodesenvolvimento para ir além da paixão, sem lutar contra ela, usando-a como aparato transformador.

Quando conseguimos fazer este trabalho de consciência, nossa atmosfera interior deixa de ser definida pela característica emocional da nossa paixão e abre-se espaço, assim, para o florescimento da Virtude do nosso tipo. A contrário das paixões, que surgem sempre de uma sensação de escassez, as Virtudes dos nove tipos surgem de uma experiência de plenitude, abundância e bondade inerente à vida, pois, neste estágio, produz-se um alinhamento da alma humana com o “Ser”. Podemos entender que cada uma das nove Virtudes é uma emanação possível ao ser humano do Coração Universal, do Amor de Deus ou do Absoluto, em mundo de 24 leis (e não mais de 48, usando a terminologia do Quarto Caminho de Gurdjieff). A palavra emanação, aqui, é importante, pois é preciso compreender que as Virtudes não são intermediadas por intenções ou desejos. Como Essência, as Virtudes não podem ser treinadas: podem apenas ser incorporadas. Nós já somos a Virtude, mas não conseguimos nos lembrar disto ou viver isto porque nos tornamos nossa paixão.

As nove Virtudes são nove tipos de emoções puras, não reativas, de nível superior ou essencial, sendo que cada tipo possui um acesso mais forte a uma delas – aquela característica do nosso ponto no Eneagrama. De fato, a paixão específica de nosso tipo é uma decorrência do esquecimento da Virtude específica de nosso tipo, ou, em outras palavras, é uma construção da personalidade em sua tentativa de fazer uma mímica do estado emocional superior perdido. Uma mímica que, via de regra, como é feita por uma estrutura de nível inferior (a personalidade) acaba gerando estados emocionais e atitudes diametralmente opostas aos da Virtude específica do nosso tipo.

Quanto mais progredimos em nosso Trabalho, mais a Virtude específica de nosso tipo volta a delinear a nossa experiência interior. E, as Virtudes resultam como atitudes e orientações interiores que são expressas como qualidades de ação, tanto dentro como fora de nós, refletindo nosso alinhamento com o “Ser” e com tudo e todos ao nosso redor. Entretanto, para pessoas comprometidas com uma jornada de crescimento pessoal, as Virtudes podem funcionar não apenas como decorrências naturais de um determinado estágio de desenvolvimento, mas também como guias para nos aproximarmos cada vez mais desse alinhamento com o “Ser”. Por exemplo, a partir da invocação da perspectiva de nossa Virtude específica em nossa abordagem daquilo que encontramos dentro e fora de nós mesmos.

Em síntese, o trabalho do centro emocional, por esta perspectiva do Eneagrama, pode ser resumido como na busca da Tradição Cristã de “converter o vício em Virtude”.

Você gostaria de compartilhar sua visão sobre os conceitos de paixão e de Virtude? Ou, sobre caminhos de desenvolvimento? Ou, gostaria de saber mais sobre estes conceitos ou sobre programas que trabalhem estes aspectos na prática?

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Urânio Paes é diretor da up9 Desenvolvimento Humano, presidente Mundial da “International Enneagram Association” (IEA) e o primeiro brasileiro certificado e professor associado no Brasil, na Argentina e na Espanha de Helen Palmer e David Daniels, dois dos mais importantes nomes do Eneagrama no mundo. Urânio possui graduação e mestrado em Administração pela FGV e especialização pela Erasmus Universiteit Rotterdam, na Holanda. Possui 18 anos de experiência em consultoria, treinamento e Coaching tendo ministrado cursos de Eneagrama para mais de 6.000 pessoas. É professor em diversas conferências internacionais nos EUA, na Europa e na Austrália;Distribui as ferramentas de desenvolvimento organizacional com o Eneagrama da consultora americana Ginger Lapid-Bogda, em Português e Espanhol. Já prestou consultoria em empresas como: Bradesco, Itaú, Unibanco, Avon, Yahoo, Alpargatas, Chemtura, VIVO*, CSN*, Embraer*, Vale*, Schincariol*, Souza Cruz*, Telefónica*, Oi* e Oracle*, entre outras.

Quer falar com o Urânio? Deixe seu comentário abaixo ou mande um e-mail para uranio@mundoeneagrama.org .

7 Comments

  1. [...] This post was mentioned on Twitter by up9 Desenvolvimento and Uranio Paes. Uranio Paes said: Leia tb artigo sobre os conceitos de paixões e Virtudes em http://mundoeneagrama.org/2010/06/a-paixao-e-a-virtude-do-seu-tipo-no-eneagrama/ [...]

  2. Vera Carvalho disse:

    Quero agradecer a atenção dda Equipe de UP9.

    Sou Cliente e admiradora do trabalho do Prf. Urânio.

    O conteudo do texto “A paixão e a Virtude do seu tipo no Eneagrama está excelente.

    Abraços carinhosos a todos vocês

    Prof. Vera Carvalho/Caxias do Sul .R/S

  3. Urânio Paes disse:

    Cara Vera, como vai? Obrigado pelo seu apoio e carinho! Fico feliz que tenha
    gostado deste artigo. Aos poucos, publicaremos continuações deste artigo,
    com considerações sobre as paixões e as fixações de cada um dos nove tipos
    do Eneagrama. Além disso, o Enneagram Professional Training Program (EPTP)
    continua trabalhando fortemente este tema, de forma vivencial.

  4. [...] artigo “Paixões e Virtudes”, discuti, de maneira genérica, estes conceitos centrais do centro emocional humano, segundo a [...]

  5. [...] artigo “Paixões e Virtudes”, discuti, de maneira genérica, estes conceitos centrais do centro emocional humano, segundo a [...]

  6. [...] artigo “Paixões e Virtudes”, discuti, de maneira genérica, estes conceitos centrais do centro emocional humano, segundo a [...]

  7. [...] o homem do baú é um dos melhores e mais caricato exemplo brasileiro de um tipo 3 subtipo social ( leia este artigo para saber mais sobre subtipos ). (me sinto muito à vontade de escrever também por eu mesmo me identificar como um tipo 3 do [...]

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